A percepção e subjectividade da realidade são coisas duras. Na eventualidade de alguém ler, sequer, a minha contribuição para a poluição do espaço virtual denominado "intarwebz", o que espero que aconteça, de outra forma seria extremamente "masturbatório", eu vou desde já antecipar algum tipo de comentário do género: "Subjectividade da realidade? Andas a sonhar demasiado alto, a realidade é bastante simples". Não é. Talvez num mundo sem paradoxos, como o teu, um mundo de preto e branco, de alto contraste, onde as coisas fazem sentido apenas de uma perspectiva ou outra. Pois acontece que no meu mundo, não vejo nem preto, nem branco, apenas tons de cinzento, apesar de que, muitas vezes, também eu luto para compreender o que vejo, e tentar libertar-me da óbvia linearidade. As vezes é bastante complicado, especialmente quando toca no nervo, ou na ferida, quando a realidade objectiva e profunda implica nadar num poço de implicações complicadas que de outra forma estaríamos perfeitamente confortáveis com a noção de não explorar. Certo, não eu. Os cristãos podem acreditar que existe um céu, os budistas a reencarnação, mas na minha opinião, tendo em base as provas concretas da realidade, eu acho que quando morrer vou simplesmente deitar-me na terra e não levantar alguma vez mais. A morte é um grande tema para mim, compreender, não temer, a inevitável transformação que irá ocorrer, invariavelmente, a todos nós. É profundo, e altera a percepção da vida de uma pessoa, e a mim altera a percepção da realidade completamente.
"Todos voltamos para a terra"
A partir do momento em que eu sei isto, como um facto, e que sei também, que muito provavelmente, não existe uma noção de vida após a morte coerente, dedico-me portanto não simplesmente a saborear o momento, mas a compreender o momento. Porque, para mim, conhecimento é apreciação, visto que quanto maior é a tua percepção nervosa do momento, maior a tua habilidade de sentires prazer, e dor. E que fique claro, que não existe doce sem o amargo. E eu não viveria o doce sem o amargo, jamais! Porque só o contraste, o paradoxo, é que motiva a vida, e isto sim, é um facto. O carácter de qualquer pessoa minimamente sensível, o que exclui a maior parte da minha raça, vive e constrói a sua vida em função do paradoxo, e só os sistemas que dependem da previsibilidade humana falham. No entanto, acredito que existe uma esmagadora tendência para a sociedade viver sem estes paradoxos, viver simplesmente numa linha de pensamento, mas isso é profundamente irrelevante.
Tudo isto para dizer o quê? Muito simplesmente que não se deve tomar nada como certo, nada como absolutamente correcto até se estar em posse de todos os factos, e mesmo ai, se deve de ter em atenção da natureza mutável da realidade. As coisas não são estáticas, desde a composição e raiz da nossa estrutura biológica, ao movimento planetário, a decisão tomada hoje em função da consequência, a mudança é o único facto real, e nós somos os seus escravos, e com gosto (falando por mim, claro, tendo em consideração que acredito que para muito boa gente, será uma noção perfeitamente tenebrosa). Eu que não encontro algum tipo de conforto numa figura patriarcal imaginária no céu ou nas profundezas da terra, encontro conforto na realidade, na estrutura da natureza, nas ondas e processos naturais de destruição e construção. Isto porque eu considero-me um filho da natureza, parte do processo contínuo da vida, etc.
Em função do meu "post" anterior, foi-me chamada a atenção por uma pessoa profundamente especial para mim uma visão alternativa da situação do aquecimento global, que tem em vista uma perspectiva bastante diferente, e que, se de facto for verdade, destrói por completo a razão e fundamento do meu argumento. Sinceramente não o sei, mas ao contrário da massa, eu aprecio e respeito a mudança, a eterna e constante natural transformação, e como tal o meu respeito por dita pessoa apenas cresce ao mostrar-me a possibilidade de estar completamente errado. Eu aprecio isso e o valor de tal exercício da razão é incalculável. Nem toda a gente é assim tão afortunada, mas não se preocupem, eu tenho a certeza de que a existência num casamento para toda a vida, complementado pelas idas a praia e ao macdonnalds, rodeado de rebentos que são a perfeita imagem da total redundância de um estilo de vida abjecto, faz com que tudo valha a pena.
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